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Entrevista com
Valmir Jesus dos Santos





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Entrevista com o jornalista, Valmir Jesus dos Santos, repórter que faz a cobertura de teatro e cultura popular do caderno "Ilustrada" do jornal Folha de S. Paulo.

Nesta entrevista abordamos a questão social, econômica e cultural do teatro brasileiro.

id:@ll - Como surgiu o teatro no Brasil?

Valmir Santos - O que se concebe como teatro brasileiro remonta ao final do século 19, quando autores como Gonçalves de Magalhães (1811) começaram a pintar um nacionalismo por meio de seus primeiros textos. Em "Antônio José ou o Poeta e a Inquisição", encenada pela primeira vez em 13 de março de 1838, Magalhães escreveu, no prefácio: "Lembrarei somente que esta é, se me não engano, a primeira tragédia escrita por um Brasileiro, e única de assunto nacional". Mas o pontapé está lá atrás, após o Descobrimento, com o processo de catequização pelo padre José de Anchieta 1534-97. Seus autos religiosos têm enorme tradição na história do teatro brasileiro. Aliás, o teatro começou na igreja, com os autos, e só depois foi ganhando a praça, em frente à igreja, depois a rua e finalmente o palco como o conhecemos hoje.

id:@ll - Quais foram as décadas mais importantes do teatro brasileiro?

Valmir Santos - Sem dúvida, aquela que inaugurou a modernidade no teatro brasileiro, a década de 40. "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues, ganhou uma montagem histórica em 1943, trazendo um autor genuinamente brasileiro, em texto que desenvolvia os planos da memória, do presente e do passado; além de trazer o encenador polonês Ziembinski, recém-chegado da Europa, que introduz novos conceitos estéticos sobre a encenação.

id:@ll - Quem fez história no teatro nacional?

Valmir Santos - Cita-se Gonçalves Magalhães, Martins Pena (o "Molière brasileiro" referência ao autor francês especializado em comédias), Nelson Rodrigues (1912-82), Ziembinski (morto em 78), Plínio Marcos (1935-99).

id:@ll - Como era a relação do teatro com a censura da ditadura militar?

Valmir Santos - O autor mais perseguido foi Plíno Marcos. Peças como "Dois Perdidos Numa Noite Suja" (66) e "Barrela" (58, seu primeiro texto para o palco), amargaram anos sob censura. O regime militar via no teatro um meio subversivo, e realmente e ele o é, por natureza, pois que, ao contrário da ilusão forçada da TV, neles, o teatro, ator, autor e espectador têm contrato firmado, desde o início, de que tudo que se passa em cena é mentira, mas demasiada verdade, porque suscita emoção, provoca sentimentos. Eis a magia.

id:@ll - Atualmente, quais as principais peças do eixo Rio – São Paulo?

Valmir Santos - Bem, entre as principais montagens em cartaz hoje no Rio, cita-se o musical "Cole Porter", dirigida por Cláudio Botelho. Em São Paulo, há "Apocalipse 1,11", com o grupo, Teatro da Vertigem, encenada em um presídio desativado; "Preat-a-Porter 3", com o Centro de Pesquisa Teatral, CPT, comandado por Antunes Filho; e "Ópera do Malandro", obra-prima de Chico Buarque, adaptada por Gabriel Villela, em cartaz no Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, palco que fundou o profissionalismo teatral no país, nos asnos 60, e por onde já passaram nomes como Cacilda Becker (1921-69), Walmor Chagas e Fernanda Montenegro.

id:@ll - Avalie os espaços teatrais nos quesitos quantidade ideal e estrutura adequada.

Valmir Santos - No teatro, penso, essa relação é muito relativa. Há os chamados teatros de câmara, para 40, 30 pessoas, teatro de bolso... E há os grandes Municipais, para cerca de mil pessoas. Em São Paulo, há as duas opções, ambas a contento.

id:@ll - Por que existe um grande número de comédias e tão poucas de outros gêneros?

Valmir Santos - Há o chamado "teatrão", com montagens que visam, sobretudo, a bilheteria, e há o teatro experimental, que transcende ao superficialismo. Não se deve criticar comédias ou dramas. Não importa o gênero, e sim a intensidade do grupo, autor e atores envolvidos. O talento não escolhe gênero.

id:@ll - Qual o motivo dos altos preços que dificultam a popularização do teatro?

Valmir Santos - As grandes produções oscilam hoje de 20 a 50 reais. Mas há também um leque de opções gratuitas em São Paulo. Os ingressos proibitivos, paradoxalmente, são daquelas peças que têm mais patrocino, mais estrutura para pagar seus artistas. No fundo, há uma ausência do Estado para subsidiar espetáculos gratuitos à população. O teatro, no Brasil, não tem a fama da TV ou do cinema. Nos países onde o teatro é mais disseminado, é também onde o conceito de cidadania e investimento na educação e cultural estão em primeiro plano.

id:@ll - Qual o segredo das peças que estão anos em cartaz?

Valmir Santos - Invariavelmente, são comédias de costumes, na base da sala de estar e várias portas, um entra e sai que lembra mais "Sai de Baixo", o programa televisivo que a Globo passa aos domingos e que, para milhares de brasileiros, tornou-se sinônimo de "bom teatro".

id:@ll - Por que o Teatro Municipal de São Paulo é pouco acessível?

Valmir Santos - É a história da ausência do poder público mesclado à classe burguesa que vê no espaço um status para desfilar sua prepotência.

id:@ll - O teatro brasileiro já esteve no auge? Quando?

Valmir Santos - O teatro sempre esteve em crise. Falou-se do fim do teatro, com a TV e agora com o advento da internet. E ele, o teatro, no entanto resiste e tem cada vez mais chance de aflorar justamente quando se pensa que tudo conspira contra, que o momento ao vivo que liga público e atores não interessa mais às pessoas... Ao contrário, é por esse motivo, o do contato único daquela noite, que o teatro provoca paixão e ódio.

id:@ll - Há novos projetos para apresentações teatrais?

Valmir Santos - Para alimentar a demanda de 60 peças em média na temporada, sempre há grupos elaborando projetos para daqui a um mês, três meses ou um ano.

id:@ll - Existe teatro no Nordeste?

Valmir Santos - E muito. Bahia, com o Bando do Teatro Olodum e Cia. Baiana de Patifaria; Recife, com o casal João e Adriana Falcão; e João Pessoa, com o Grupo Piolim, fundado há 23 anos, são exemplos de resistência e floreio.

id:@ll - O número de escolas profissionalizantes de teatro no país é suficiente?

Valmir Santos - Acredito que sim. E ainda segue a polêmica de cursos que não formam direito. No fundo, é o palco, o frente-a-frente com o público é que decidem quem irá adiante.

id:@ll - Por que os curso são caros?

Valmir Santos - Como tudo, o deus mercado também está regendo as escolas que não têm aval do governo.

id:@ll - O mercado de trabalho é muito restrito? Por que?

Valmir Santos - A cada ano, são formados em média 3 mil atores em São Paulo. Esse número já dá a medida da inflação. É uma regra que, infelizmente, diz respeito a todas as profissões nos dias de hoje.

id:@ll - No teatro há retorno financeiro?

Valmir Santos - Teatro não dá dinheiro. Dá um pouco para grandes produções, com atores globais, mas ainda assim, menos do que ele ganharia em frente à câmera da TV Globo.

id:@ll - Há preconceito da sociedade referente ao fato de ator ser considerado profissão?

Valmir Santos - Hoje, menos. No passado, atriz era freqüentemente associada a prostitutas; e atores, a homossexuais. A sociedade avançou muito em relação a isso. Quem confirma essa condição discriminatória é a veterana Dercy Gonçalves, que fugiu com um artista de circo e deixou para trás o moralismo da família, sofrendo e superando todo tipo de perseguição por causa da sua opção pela arte.

id:@ll - Quais são as técnicas de teatro?

Valmir Santos - São infinitas as possibilidades das artes cênicas, geralmente circunscrita ao teatro e à dança. Bem, no teatro os recursos e linguagens multiplicam-se na interpretação do ator, na construção cenográfica, na confecção do figurino, de adereços, no desenho da luz, na trilha sonora, na projeção de imagens... Enfim, é cada vez mais comum à incorporação de novas tecnologias e, ao mesmo tempo, a manutenção do caráter artesanal do teatro, ou seja, na inevitabilidade humana que se tem na relação palco/espectador, na representação única a cada noite. Uma cena nunca é igual à anterior, e vice-versa. Variantes como o estado emocional do ator e do público, determinam a intensidade do que está em jogo (a palavra, o gesto, o movimento). Entre os grandes mentores das técnicas de interpretação, por exemplo, está o russo Stanislavski (a densidade psicológica na construção do personagem), o francês Antonin Artaud (teatro da crueldade), o alemão Bertold Brecht (o distanciamento do ator para com o personagem) e o polonês Jerzy Grotowski (perspectiva antropológica), todos pensadores deste século que finda.

id:@ll - Existe o talento nato de ator?

Valmir Santos - Na minha opinião, sim, mas sem aquela visão mistificadora. O talento nato entendido como vocação, como se tem o gari, o advogado, o jornalista, o médico. Mas talento não ganha jogo. É imprescindível a matéria-prima da técnica para se sentir pleno no exercício de qualquer ofício... Uma baba jamais fará uma criança dormir se não tiver talento para isso, superior a muitas mães por aí.

id:@ll - São necessários conhecimentos fundamentais para ser ator? Quais?

Valmir Santos - Sem dúvida. Nesse sentido, o exemplo mais emblemático do teatro brasileiro é a figura do diretor Antunes Filhos, que há cerca de 20 anos está à frente do Centro de Pesquisa Teatral, o CPT, cuja sede fica no Sesc Consolação, mantido pelo Serviço Social do Comércio em São Paulo. Antunes influenciou várias gerações, com mais ênfase do final dos anos 70 para cá, no sentido de o ator superar o naturalismo, a histeria da interpretação exagerada, sem nuances interiores. Ele exige que seus atores leiam física quântica, teorias orientais, filosofia, enfim, Antunes defende a formação humana como base da formação do ator - uma não está dissociada da outra. Atualmente, a séria "prêt-à-porter", em cartaz na cidade, sintetiza o pensamento de Antunes sobre o teatro contemporâneo.

id:@ll - A Campanha de Popularização do Teatro - Apetesp (de nov. a mar.) traz resultados?

Valmir Santos - Em tempos recessivos, em que o índice de desemprego só faz subir, acredito que o preço do ingresso (variando de R$ 10 a R$ 50, R$ 60) constitui proibição para as classes menos favorecidas. A campanha preenche um pouco essa lacuna, mas não equivale a 1% do que deveria ser o papel do Estado na cultura, ou seja, subsidiar o teatro para que ele chega a todos, democraticamente, e não dê acesso apenas a quem pode bancar.

id:@ll - Quais os festivais mais famosos?

Valmir Santos - No Brasil, por ordem de importância, o Festival de Teatro de Curitiba (março/abril), o Porto Alegre em Cena (setembro) e o Festival Palco e Teatro de Rua de Belo Horizonte (agosto).

id:@ll - Estes festivais contribuem para a divulgação do teatro?

Valmir Santos - Com exceção de Curitiba, que tem uma projeção mais nacional, priorizando as estréias que irão percorrer outras praças ao longo do ano. Belo Horizonte e Porto Alegre têm função de formação do público local. A divulgação, nesse sentido, tem papel mais de formação.

id:@ll - Há interesse do público nestes festivais?

Valmir Santos - Em todos. Curitiba é bem caro, com média de R$ 20 o ingresso, e o evento está voltado mais para a classe média, média-alta; em Porto Alegre e Belo Horizonte, o acesso é mais amplo, com ingressos a R$ 5 na última edição de cada um deles.

id:@ll - Existe intercâmbio de autores, dramaturgos e atores entre o Brasil e demais países?

Valmir Santos - É um intercâmbio pequeno, sobretudo em relação aos países do Mercosul, da América Latina em geral. Mas o eixo São Paulo - Rio vem recebendo cada vez mais montagens internacional, como o grupo catalão La Fura del Bals e, no último Porto Alegre em Cena, o primeiro Peter Brook, ou seja, a primeira peça do renomado encenador inglês no país, o que foi um marco.

id:@ll - Onde o teatro é bastante significativo? País e público.

Valmir Santos - Na Inglaterra, berço de Shakespeare, na Itália, Polônia, Espanha e surpreendentemente em Cuba e no Uruguai, por exemplo, o teatro emana com força geradora que influenciam outros países. Nos EUA, terra do entretenimento por excelência (ou seja, deus mercado), o teatro está condenado ao distrito da Broadway, com seus grandes musicais caça-níqueis.